Estou deitado na cama, puxo o celular para ver as horas e a previsão do tempo. Meu óculos ainda não é bifocal, tenho dificuldade de enxergar as letras pequenas próximas a mim. Para ver melhor, levanto o óculos e o coloco na cabeça, um pouco acima da testa. Minha namorada diz, em tom que ela jura que não foi de deboche:
— Com o óculos assim, parece uma bicha!
Minha reação de fúria, gritando e jogando o óculos no chão, com raiva, mais tarde foi descrita como homofóbica. Também foi descrita como reação típica de homossexualidade. Não sei a causa, mas fiquei tão transtornado com a minha reação exagerada, que naquela semana procurei uma psicóloga e comecei a frequentar a terapia. Minha raiva era tão grande que passei a ter medo de machucar as pessoas próximas a mim. Se cada vez que algo sem importância me deixasse assim, o que eu não poderia fazer caso fosse uma tentativa real de tentar me ofender?
Quando eu era criança, 10 anos de idade, ao chegar ao colégio, dois colegas de outra turma começaram a rir e debochar de minhas calças curtas:
— Marrecão! Marrecão!
Eu nem sabia que era errado usar calças curtas, quem escolhia minhas roupas era minha mãe naquela época. Fiquei muito envergonhado, não falei nada, corri para dentro da minha sala de aula o mais rápido que pude.
Nunca vou entender o bullying. Prazer em fazer ou ver pessoas sofrerem. Por que seria engraçado rir da roupa de outra pessoa?
Deve haver um elo perdido entre eu e o resto da desumanidade.

